Avançar para o conteúdo principal

A minha tia Ana Maria



Uma das primeiras contingências da nossa vida é a família em que nascemos. Não a escolhemos e ela não nos escolhe a nós. Não escolhemos os genes, o feitio, as virtudes e a forma física dos nossos antepassados que queremos para nós, nem o ambiente familiar ou a classe social em que crescemos.
Do mesmo modo, os nossos pais não puderam colocar-nos no sangue aquelas características que gostariam que tivéssemos. Somos um fruto incerto. Nada sabemos de nós e dos que nos rodeiam. Mas somos dotados de liberdade intrínseca para fazermos escolhas e trilharmos o nosso caminho, com todas as pedras que ele contenha e que inesperadamente nos surjam.

Tive sorte: posso dizer que devo à providência a graça de ter nascido numa família grande. Uma família grande que é uma grande família. Os Freire Torres, uma família que, por defeito ou feitio, não conheço na sua totalidade. Mas uma família que amo de forma incondicional e entre a qual me sinto sempre… em família. Sangue do meu sangue, carne da minha carne. Uma herança que aceitei e que me define.

Nasci de um dos mais velhos da sua (terceira) geração, o que acabou por ser passaporte para conhecer alguns dos membros mais velhos da família. O meu pai transmitiu-me o grande amor que cultivava por ela. E isso aconteceu sem grandes palestras ou moralidades, antes fazendo com que a família estivesse sempre presente em todos os momentos importantes da minha vida.

É aqui que surge a minha tia Ana Maria e é assim que ela entra na minha vida. Ana Maria de Seixas Castelo Branco Arantes Freire Torres, nascida a 2 de Setembro de 1927 , minha tia-avó, casada com o irmão mais novo da minha avó paterna e que morreu no dia 26 de Janeiro deste ano, deixando uma imensa saudade, mas também um imenso lastro de amor. É nela que o meu pensamento se detém hoje.

Recordo a missa de sétimo dia, em que um dos netos tomou a palavra e, procurando reagir ao elogio fúnebre cliché que teima em fazer dos mortos gente de exclusivas virtudes infindas, disse que a sua avó não era perfeita nem santa, nem nunca o quisera ser. Que tinha muitas imperfeições, mas que era perfeita em todas as suas imperfeições. «Que querido!», ouvi uma senhora exclamar ao meu lado.

Mantive-me calado e pensei para mim. Aderi à provocação -, a única forma que conheço de respeito para com quem nos diz alguma coisa, - e concordei com ele. «Tens razão Miguel!», disse para mim. São os nossos defeitos que nos tornam parte da realidade. São ele que nos tornam humanos. São eles que nos permitem sermos heróis do quotidiano. Que se lixem os clichés; esqueçam os clichés. A saudade que o coração guarda é sempre maior que qualquer cliché. E o saldo que fica da sua vida é muito mais que positivo. A mim, a tia Ana Maria marcou-me muito e ajudou-me mais.

A tia Ana Maria marcou a minha infância, porque desde cedo recordo a sua presença em minha casa. Ela ia a festas. Às minhas festas. Ela era presença habitual nas celebrações então consideradas grandes passos do crescimento: a primeira comunhão, a profissão de fé, o crisma, etc. Era uma visita importante, na medida em que era uma visita só de momentos importantes.
Marcou-me depois pela sua força quando um dia conheci os desafios que a vida lhe colocou. As perdas do marido e de três filhos; as doenças de filhos e netos; tudo enfrentou e debelou com coragem. E, a partir daí, sempre a olhei com grande admiração. Não só por ser tão forte mas acima de tudo pela sua forma de enfrentar cada desfio.
Marcou-me também pela sua constante alegria, aquela alegria que a vida não lhe tirou -, antes pelo contrário, reforçou, - e pelo seu sorriso sempre rasgado, sabendo sempre o meu nome quando me via, passassem meses ou anos sem nos vermos, exclamando com uma voz que permanece mais clara que nunca na minha cabeça: «Oh filho, então não me haveria de lembrar?».
Marcou-me pela forma como conseguiu construir uma família unida. Unida, como deviam ser todas as famílias, respeitando-se e, sobretudo, amando-se. Uma família onde todos (e já conta 77 membros) têm lugar e onde todos fazem falta. Uma família que sabe que é mais forte toda junta. E esta foi uma lição que aprendeu - imaginem lá! - com a sogra, como ela própria contava.
Nos seus últimos dias, marcou-me pela tranquilidade com que enfrentou a doença e a morte.

«Porque a vida só se dá/Pra quem se deu/Pra quem amou, pra quem chorou/Pra quem sofreu», escreveu o meu fiel amigo Vinícius de Moraes. E a tia Ana Maria provou-o bem. Para mim, que gosto tanto de livros, ela personificou bem muitas palavras escritas. Ela foi aquilo que Luigi Giussani apontava ser a experiência cristã: uma incansável abertura à realidade, uma constante disponibilidade, uma sede infinita de infinito. Ela foi alguém que viveu intensamente o real; que de toda a adversidade fez uma oportunidade; foi alguém que Cesare Balbo não teria dúvidas em qualificar como uma força da natureza, porque «os fortes e constantes não estão acostumados a perguntar quão fortes nem por quanto tempo, mas como e onde devem combater». Porque acontecesse o que acontecesse ela estava lá, sempre presente, pronta para o que desse e viesse.
É isto que guardo dela: aquela força que permanece viva como um sinal vivo de esperança; um sinal permanente de lembrança de que todos os desafios que a vida nos coloca -, bons ou maus; alegrias e tristezas; sofrimentos e dores, - são feitos para nós e à nossa medida. A vida foi feita para nós.

A vida trouxe-me cedo algumas tristezas. Nenhuma, até hoje, comparáveis às suas. Mas como eu não tenho a sua força, para mim o desespero chegou facilmente. E foi nas horas difíceis – geralmente é nas horas difíceis que nos lembramos das pessoas – que me lembrava particularmente dela. Porque pensava nas angústias pelas quais passou, que nenhuma se compararia à minha e que mais do que ter de ser, eu tinha o dever de ser corajoso e forte como a tia Ana Maria sempre foi, sob pena de não merecer a tia e a família que tenho.

Sim, defeitos todos temos e nunca os perdemos. Mas nem todos sabemos como lidar com eles. E ainda menos são os que sabem viver com eles. A imagem que guardo da tia Ana Maria poderá parecer fugaz ou improvável, mas é uma imagem plena de humanidade que se sobrepõe a qualquer defeito.

Se ela fez tanto por mim que quase nunca a via, quanto não terá feito por aqueles que a viam com frequência e que lhe eram naturalmente mais próximos? Fez muito, eu sei. Testemunho-o no olhar e nas palavras de todos os filhos, netos, bisnetos, genros e noras. Não há alegria e conforto maior que ter uma família unida. E as lágrimas que hoje se choram, não são mais que o preço a pagar pela alegrias que se teve, ou como dizia Anthony Hopkins no papel de C.S. Lewis nessa obra-prima do cinema que é o filme Shadowlands«The pain now is part of the happiness then. That's the deal.».


No céu, onde está agora, a tia Ana Maria velará por todos. Como fez toda a vida.

Quanto a mim, misero jogral, tive sorte; muita sorte em poder cruzar-me com ela.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Ainda não sei bem como consegui

Carta para o teu avô e meu pai; (se ele fosse vivo, eu não precisaria escrever...) M eu amor pequenino, Talvez haja ainda muito tempo para contar esta história, embora nunca seja demais recordar esse dia que mudou para sempre a minha vida e que faço questão que conheças, para que saibas e nunca esqueças de onde vens. Além disso, como aprenderás, o "talvez" é averso a certezas. E uma das coisas que mais me importa que retenhas é que o tempo que vivemos não é nosso, mas algo que nos foi dado viver. Por essa razão ele pode ser-nos retirado a qualquer momento e aquilo que existe hoje e agora pode não existir amanhã ou depois. É por isso - e digo-to com a certeza inscrita na carne - que para não nos condenarmos a viver no arrependimento, não devemos nunca adiar ou calar palavras gentis por medo, vergonha ou reverência, sob pena de perdermos a oportunidade de as pronunciar e de com elas aumentarmos o rol de falhas pelas quais prestaremos contas a Deus. Do mesmo modo (não...

A julgar que vou remando...

A 7 de Fevereiro de 1952 morria Sebastião da Gama, professor e poeta de Azeitão. No dia seguinte, no mesmo ano, o meu pai celebrava os seus 17 anos.  Sem qualquer nexo entre as datas, senão a próximidade no calendário das efermérides, hoje recordo ambos. Não consta em qualquer registo ou memória que se tenham conhecido. Nem a curta coincidência temporal em que as suas vidas se sobrepuseram permitiu tal contacto. Porém o jovem poeta - morreu com 27 anos, pelo que terá merecido a eterna juventude - transporta nos seus versos essa robusta certeza da dependência de Deus, certeza essa que quero recordar nesta data. «A corda tensa que eu sou, o Senhor Deus é quem a faz vibrar» . Sebastião da Gama Estou certo da fé do meu pai: pelo seu testemunho, pelo seu olhar, pelo amor que me tinha. Mas não é da fé do meu pai que vos quero falar; é da minha. Nos breves momentos que nos permitimos à contemplação nesta vida célere que construímos - em geral, horas roubadas à noite e ao sono - relembro t...