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Ainda não sei bem como consegui

Carta para o teu avô e meu pai; (se ele fosse vivo, eu não precisaria escrever...)

Meu amor pequenino,

Talvez haja ainda muito tempo para contar esta história, embora nunca seja demais recordar esse dia que mudou para sempre a minha vida e que faço questão que conheças, para que saibas e nunca esqueças de onde vens.

Além disso, como aprenderás, o "talvez" é averso a certezas. E uma das coisas que mais me importa que retenhas é que o tempo que vivemos não é nosso, mas algo que nos foi dado viver. Por essa razão ele pode ser-nos retirado a qualquer momento e aquilo que existe hoje e agora pode não existir amanhã ou depois.

É por isso - e digo-to com a certeza inscrita na carne - que para não nos condenarmos a viver no arrependimento, não devemos nunca adiar ou calar palavras gentis por medo, vergonha ou reverência, sob pena de perdermos a oportunidade de as pronunciar e de com elas aumentarmos o rol de falhas pelas quais prestaremos contas a Deus.
Do mesmo modo (não posso deixar de o dizer), devemos sempre temperar as palavras más ou negativas com justiça e caridade, tendo sempre presente que também nós falhamos - e falhamos muito - e que nessas ocasiões, também nós queremos ser perdoados.

Sabes, meu amor pequenino, dificilmente na vida conhecemos Certezas tão grandes como aquela que experimentei ao conhecer a tua mãe.

Há momentos assim, em que a realidade se impõe com a suavidade de uma alabarda. Não há palavras, não há gestos, não há acções que estanquem a sua marcha. Fica apenas e só a derradeira evidência: a consciência de que o acontecimento presente foi feito para nós; a consciência de que nada no mundo existe que nos corresponda mais - que nos responda mais - que aquele exacto momento. É a isto que chamamos Certeza (com letra maiuscula). E é através deste choque com a realidade, que experimentamos, de forma mais clarividente, o desafio que a chamada margem de contingência (também chamada de Acaso) coloca ao outro elemento que consigo coexiste na nossa vida: a nossa liberdade.

Conheci a tua mãe no dia 1 de Abril de 2016.
Nessa época a tua mãe partilhava casa com um amigo comum, que organizou um jantar para o qual me convidou.
Chovia em Lisboa. 
Ainda me lembro de sair de casa, de impermável, já noite escura, para apanhar um autocarro até casa dos anfitriões. 
Ainda guardo o guarda-chuva que me acompanhou à saída, quase 36h depois de ter entrado naquela casa.

Estás a ver aquela cadeira de palhinha que está na nossa sala? 
Aquela, que tem uma trave partida e que a mãe está sempre a lembrar que alguém (eu) um dia prometeu arranjar? 
Era aí que a tua mãe se encontrava sentada quando entrei em casa.
Então não havia ainda uma trave partida.
A cadeira estava na parede diametralmente oposta à porta da sala, e acentuava a fronteira artificial entre a casa de jantar e sala de estar.
Assim que cheguei à porta da sala, com a minha maneira barulhenta e ruidosa de ser, a tua mãe olhou para mim, e foi a primeira vez que os nossos olhares se cruzaram e eu pude ver os seus olhos azuis com atenção.

Há uma certa ironia na vida: somos educados a pensar pela nossa cabeça e a crer que o juízo crítico leva tempo a formular, razão pela qual as nossas escolhas - que não se compadecem do tempo que o correcto juizo exige - não são perfeitas mas são as possíveis. 
Porém, as coisas Belas da vida são aversas a grandes explicações e juizos criticos; são o que são, apresentam-se como são, simples, sem espaço para dúvidas. Experimentam-se, nomeiam-se, questionam-nos, mas não se explicam. É por isso que elas se resumem numa frase curta, mais activa que descritiva.
No meu caso, uma só frase me surgiu de imediato; uma frase que repeti vezes sem conta durante aquela noite e durante os dias seguintes: "é para casar!"

A Certeza que experimentei, a Alegria que me invadiu, o Desejo que me tomou, o Foco que me absorveu e atraiu reduzindo tudo à sua insignificância, recentrou a minha existência no que verdadeiramente importa. Claro que me perguntei quem era aquela rapriga dos olhos azuis que estava diante de mim - e questinonei-me por uma razão: é que nunca ninguém me tinha falado daquela maneira (porque como aprenderás, muitas coisas se podem dizer sem palavras).

Claro que ninguém me disse que a tua mãe gostava de mim, nem que iria casar comigo e ainda menos que o quereria fazer algum dia. O que acontece é que a realidade nos assalta. Mas em vez do clássico "a bolsa ou a vida", o assaltante pergunta-nos se aderimos ou não à provocação que nos faz: se vamos atrás daquele rosto que se destaca no meio da multidão ou se ficamos inertes. 

Nota: não se trata de uma história de amor à primeira vista, mas do fascínio do encontro como Sinal de algo maior. Se é verdade que só temos uma oprtunidade de causar uma boa primeira impressão, também é verdade que primeiras impressões todos temos e perdemos. Ou confirmamos.
O amor - como aprenderás quando leres a Jane Austen às escondidas da tua mãe - é uma arte que se cultiva ao longo de uma vida e que só acontece à segunda ou terceira vista, renovando a Certeza do primeiro instante a cada novo cruzar do nosso olhar, tal qual o circulo hermenêutico de Gadamer. Com isto te digo que a Certeza do encontro com a tua mãe, e tudo aquilo que vivemos nos tempos seguintes, tornou claro aos meus olhos que a única razão pela qual valia a pena viver era para casar com ela ou para morrer a tentar.

Esse momento - do encontro com os olhos da tua mãe e com aquele seu sorriso que eu tanto gosto - fez nascer em mim a Certeza que se foi renovando e crescendo a cada dia, sendo o ponto de partida de uma história em que deixei de fazer um percurso só meu, mas nosso, onde eu sou mais eu e ela mais ela, pertencendo cada um de nós ao outro. 

Na verdade, há uma confissão a fazer: antes deste dia, já tinha visto a tua mãe uma vez. Devo dizer-te que já então irradiava uma luz imensa e trazia consigo aquela leveza que a caracteriza, como sempre faz nos seus melhores dias. Embora me recorde bem de ter perguntado a mim próprio quem seria aquela rapariga, nesse dia, o lugar que eu então ocupava não me permitia atrevimentos, e impedia-me de pensar ou imaginar como aquela mulher podia e iria mudar para sempre a minha vida.

É por isso que, como sempre te digo, os nossos planos, nesta vida, são patéticos. Tal como dizia o Benjamin Disraeli, "There are so many plans, so many schemes, and so many reasons why there should be neither plans nor schemes.". 
E ainda bem que assim é!

Quanto à trave da cadeira, ela materializa tudo o que acabo de te descrever: como sabes já, eu destesto partir e estragar coisas - e nunca deito nada fora. Mas quando encontrei a tua mãe, o Foco passou a ser só ela. Tudo o resto, era acessório. E tal como Zaqueu subiu a uma árvore, eu parti uma cadeira (entre outras coisas) para poder ter a atenção da tua mãe. 

Conto-te hoje esta história por três razões distintas.
Em primeiro lugar, conto-te esta história para que conheças o significado da palavra Origem. E retém isto: tu nasceste da Certeza. Com o tempo, quando cresceres, compreenderás o que isto significa.

Em segundo lugar, porque quero que aprendas que partir e destruir não são a mesma coisa; e que a cada coisa que se destrói, um pedaço ou uma história morre com ela. Pelo contrário, cada coisa que perdura é um sinal que ajuda a manter a nossa memória viva - e com ela, o nosso olhar focado sobre aquilo que realmente importa.

Por último, porque temo que, muitas vezes, olhando para o pai e para a mãe, te perguntarás como consegui.
Muitos me fazem essa pergunta. Outros questionam-se em silêncio, sem coragem para me interrogar.
A resposta, porém, é tão simples como inconclusiva: não sei.
Limitei-me a aderir à provocação que a Certeza desperta em nós.
Como todas as coisas que nos ultrapassam, só podemos dar Graças a Deus. Porque as Graças de Deus são assim: ofertas muito superiores à nossa capacidade de entendimento e merecimento.
Por isso a tua mãe tem sido para mim, desde o início, como sempre te sussuro a essas orelhas pequeninas quando estás ao meu colo, um verdadeiro milagre. E é assim que quero que olhes sempre para ela, assim como os irmãos que virás a ter.

Como vês, nada há na vida que o Amor não multiplique (lembra-te o dizia o Conde de Saint-Exupery: "L'amour est la seule chose qui grandit quand elle se partage."). Essa é a parte comum da nossa história, que em nada difere da de tantas outras pessoas que colocaram o Amor na base da sua vida.
Tudo o resto, conto-te como que em segredo. Não o deves repetir muitas vezes; não porque não nos cause um imenso orgulho - falo por mim, embora tenha a certeza que sentirás o mesmo - mas para não causar inveja nem cíume aos outros.

Um beijo,

Pai

Foi sendo escrito entre o dia 08 de Dezembro de 2019 e o dia 15 de Agosto de 2020;
o primeiro dia da Mãe da tua mãe e o dia de Nossa de Senhora da Assunção, que celebramos em Coruche;
Terminado, por fim, a 11 Setembro de 2020, a tempo das bodas de trigo dos teus pais

Comentários

  1. Lindíssimo! Não tenho memória de ler um texto tão verdadeiro e maravilhoso como este! vocês são um casalinho top top! Tu, meu querido Lourenço, merecias a carolina e mereces tudo de bom nesta vida! sejam sempre, por todo o sempre, muito felizes

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